Zuenir Ventura responde ao Questionário Proust

Zuenir Ventura, o escritor mineiro de Além Paraiba,  um dos mais renomados e premiados jornalistas do País, respondeu ao Questionário Proust para o Salvem os Gatos e admitiu que não há nada melhor no mundo do que ser avô de Alice e Eric

 

Amar o transitório

Por Zuenir Ventura

Carpe diem é uma expressão latina presente numa ode do poeta Horácio, da Roma Antiga, e que ficou popular no fim dos anos 80 por causa do filme “Sociedade dos poetas mortos”, de Peter Weir, em que funcionava como lema do personagem interpretado por Robin Williams.

Quem viu não esquece aquele professor de literatura carismático que subverteu a caretice de uma escola conservadora, exaltando a liberdade e a poesia, e ensinando seus alunos a pensar por si mesmos. Carpe diem significa “aproveite o dia de hoje”, ou seja, desconfie do amanhã, não se preocupe com o futuro, não deixe passar as oportunidades de prazer e gozo que lhe são oferecidas aqui e agora.

Neste texto, o conselho não tem nada a ver com a proximidade do carnaval. Ou pode ter, mas essa não é a intenção. Ele me foi lembrado por um amigo numa conversa em que lamentávamos algumas ameaças à saúde que atingiram pessoas queridas. Em proporções mais dramáticas, era um pouco daquilo que Ronaldo Fenômeno resumiu na sua emocionante despedida.

Como as dele, eram derrotas para o corpo. Trapaças que ele apronta na forma de um tombo traiçoeiro ou do defeito de uma peça do nosso mecanismo.

Falávamos de quanto tempo se perde com bobagens que nos aborrecem além da conta, deixando passar momentos preciosos como, por exemplo, uma dessas nossas luminosas manhãs que nenhuma outra cidade consegue produzir com igual esplendor.

Desprezamos por piegas as emoções singelas e vivemos à espera das ocasiões especiais, de um estado permanente de felicidade, sonhando com apoteoses e sentindo saudades do passado e até do futuro, sem curtir o presente.

Só quando surge a perspectiva da perda é que damos valor a deleites simples ao nosso alcance, como ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver Alice sorrir, assistir a “O discurso do rei”, ver o “Sarau”, de Chico Pinheiro, receber o afago de leitor(a), voltar a andar no calçadão, beber uma água de coco ou admirar o pôr do sol no Arpoador.

Foi depois desse papo de exaltação hedonista que meu amigo concluiu que, como o destino nem sempre avisa quando vai aprontar, urge curtir enquanto é tempo — carpe diem. O grande poeta pernambucano Carlos Pena Filho, que morreu aos 31 anos num acidente de carro, em 1960, disse mais ou menos o mesmo num dos mais belos sonetos da língua portuguesa, “A solidão e sua porta”, que termina assim:

Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

zuenirventuraentrevista

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  1. Glauber de Oliveira disse:

    Julie Milk,

    Como vai? Estou tentando entrar em contato com o escritor Zuenir Ventura, que pude encontrar no seu site. A história é um pouco longa, mas tentarei resumir. Basicamente estou tentando mostrar originais meus ao senhor Zuenir. Entre tantos motivos, o maior é o fato do mesmo ser um grande autor do Brasil. Venho pensando em publicar um livro e das poucas opiniões que tenho sobre ele, a mais valiosa é a do poeta e escritor Lêdo Ivo, que já faleceu e deve ser conhecido do senhor Zuenir Ventura. Ficaria muito feliz de ter uma opinião dele sobre o meu livro. Se puder ajudar-me, lhe ficarei muito grato.

    Glauber de Oliveira

    P.S.: No mais, meus parabéns por apresentar no seu site um autor brasileiro tão importante.

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