O enterro do Grunge

“Você parece mais triste com a morte do Chris Cornell do que com o fato de que você fez um aborto… ’’ ‒ disse-me uma amiga, outro dia, ao telefone.

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Seja ele alegre e cheio de vida, ou morrendo aos poucos diante de nossos olhos, a morte de um artista amado sempre vem como uma pancada violenta porque, até certo ponto, essas pessoas estão congeladas em nossas mentes no momento de seu maior impacto sobre nós.

Isso é especialmente verdadeiro quando se trata de uma garota ex-grunge como eu, cheia de questionamentos e angústias, e que sentia forte conexão com os músicos de Seattle.

A turma responsável pelo último grande movimento do rock, durante muito tempo, soou como alguém que entendia os meus pensamentos mais obscuros.  Verdade seja sita, os momentos da minha vida que estão entrelaçados com o trabalho dessa galera podem preencher um livro.

E com a morte de Chris Cornell, sinto que não perdi apenas um artista-chave da minha adolescência e juventude, mas fica a percepção de que agora se foram quase todos eles. Salvo Mr. Eddie Edder.

Além do mais, quando morrem pessoas que escrevem as trilhas sonoras das nossas vidas, os momentos para os quais essas músicas foram pano de fundo voltam imediatamente a estar em evidência nos nossos corações.

Eu até hoje, quando penso em Chris Cornell, vem à minha mente um Cornell de vinte e poucos anos, sem blusa, dentro de um galpão em chamas, ao lado dos parceiros de banda, no vídeo da música Outshined. Penso em Seattle, penso em mim, também aos vinte anos, na calçada da  extinta Tower Records, esperando para comprar ingressos do show da turnê “Euphoria Money”. Penso em Black Hole Sun tocando altíssimo na minha casa em Pacific Beach, Califórnia.

Portanto, ao saber do suicídio do Chris, não foram apenas o custo humano, o potencial criativo perdido ou os anos de música que ainda viriam por ai os responsáveis por me fazer triste. É que muitos de nós, jovens grunges nos anos 90, viramos órfãos pela perda de tantos cantores que conseguiram fazer esse tipo de conexão com nossos antigos eus angustiados.

Sem levar em conta que nunca houve, na história da música, um grupo de músicos tão unidos. Aliás, a geração X tem essa característica: é uma geração unida, um grupo de pessoas que prefere ter menos amigos, porém íntimos, do que ser como os milênios, famosos por colecionarem milhares de conhecidos, trocentos seguidores on-line, porém o que existe em quantidade, falta em qualidade.

Outra coisa interessante da minha geração, além do aspecto de ser pautada na lealdade, é o fato de que, à medida que ela envelhece, continua a fazer as coisas à sua maneira, seja no trabalho, seja no lazer, seja na vida em geral.

Mas envelhecemos.

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Na conversa sobre o meu fatídico aborto ‒ ainda que eu ache estranho ter que quantificar sentimentos ‒, eu disse à minha amiga que, logicamente, ter estado grávida e ter perdido um bebê não foi algo fácil de digerir, nem emocionalmente, nem fisicamente. O que ela não entendeu, é que assim como meu aborto, a morte de Cornell simbolicamente representa a mesma coisa: o fim de uma era…

A voz da minha geração morreu, deixando um vulto de tristeza sobre as músicas que ajudaram muitas pessoas a vencer seus próprios demônios. E sim, eu e meu antigo eu dos anos 90, estamos ambos com o coração partido.

 

 

 

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