Nem sempre tamanho é documento

Por Juliana Moreira Leite

 

“A crônica é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão de cozinha.” (Antônio Candido)

 

A crônica é uma narração curta, que tanto pode ser inspirada na realidade quanto na ficção. Um relato poético de diversos eventos, no qual os fatos descritos pelo cronista transcorrem em ordem cronológica. O gênero apresenta direta ligação com o tempo – a palavra crônica vem do grego chronikós, derivado de chronus, que significa tempo. Trata-se de um texto acima de tudo subjetivo, pois apresenta somente a perspectiva do seu autor.

Escritores de crônicas, em geral, são pessoas observadoras, contempladoras e introspectivas. Donos de uma escrita que se aproxima da fala, escrevem histórias de forma bastante natural, em estilo direto. Tal como uma carta aberta ou o pensar em voz alta. Qualquer tipo de acontecimento – por mais prosaico que seja – serve como base para desenvolverem seus textos. Despretensiosamente, o bom cronista faz poesia a partir de toda a realidade que o cerca. Nada é banal ou insignificante para aquele que escreve crônicas. Através de uma escrita leve que envolve poesia, lirismo e fantasia, desde uma ida à padaria, um gato brincando na janela da vizinha, até o fim de um casamento falido, o cronista tem algo a escrever. É comum os cronistas usarem e abusarem de situações particulares para falar de temas que compõem a condição humana.

Por serem geralmente escritas na primeira pessoa, as crônicas têm um tom intimista e, consequentemente, provocam uma conversa íntima entre escritor e leitor. Criar intimidade entre o leitor e o narrador, aliás, é um dos benefícios do “Eu”, empregado neste tipo de narração. De tal modo, que não é fácil encontrar pessoas que consigam se comunicar tão bem quanto o cronista.

Ainda assim, a crônica é uma arte por vezes não muito compreendida e, dessa forma, pouco respeitada pelos leitores dogmáticos. Há quem considere a crônica um “gênero menor da literatura”, uma atividade vira-lata de escritores marginais. Os autoritários literários reprovam os cronistas, entre outras coisas pelo lirismo, sentimentalismo, e excessivo apego ao ‘Eu’ em suas crônicas. Para esses detratores, Antonio Candido, em seu artigo “A vida ao rés- do- chão”. (CANDIDO: 1992, p. 13) escreveu que a crônica é “um gênero menor, graças a Deus, porque sendo assim ela fica mais perto de nós”.

Seriam menores, Machado de Assis, Olavo Bilac, Humberto Campos, Carlos Drummond de Andrade, Rubens Braga, Paulo Mendes Campos, Paulo Francis, Arthur Dapieve, Luis Fernando Veríssimo e tantos outros? Queiram os puristas de plantão, ou não, a verdade é que os cronistas fazem literatura ao expressarem com simplicidade o mundo ao seu redor.

Embora existam cronistas no mundo inteiro, alguns estudiosos sustentam que foi o Brasil praticamente o criador da crônica. De acordo com essa opinião, autores como Paulo Mendes Campos e Rubem Braga fizeram da crônica um gênero literário quase que exclusivamente brasileiro. “Esse gênero trás a marca de brasilidade. A capacidade de improviso, o temperamento anárquico, a carnavalização, a plasticidade intelectual do homem brasileiro, porque ele não está habituado a pensar sistematicamente, como, por exemplo, na Europa. Para nós vale muito mais a imaginação recriadora dos fatos”, afirmou em entrevista o escritor e cronista Adriano Spínola.  

Belo exemplo disso é o jornalista, escritor, professor, crítico musical e colunista, Arthur Dapieve. Culto como poucos, suas crônicas podem ser lidas toda sexta-feira no caderno de Cultura do jornal “O Globo”. Com elegância de estilo e fácil movimento de ideias, Arthur trata dos mais diversos assuntos em seus textos. Desde sua paixão pelo Botafogo, até cultura, cinema, música, artes e política. Dotado de sensibilidade especial e de aguçado senso de observação, qualquer assunto sob a lente deste jornalista vira música. Através de um olhar sensível e atento, Dapieve presenteia-nos semanalmente com textos afiadíssimos, que merecem atenção de todos os leitores exigentes.

Além da sua coluna semanal no jornal O Globo, o jornalista, mestre em Comunicação Social, é professor de jornalismo da PUC-Rio. Anteriormente, Dapieve trabalhou em veículos como Jornal do Brasil, revista Veja Rio, site No mínimo, e O Globo, como editor. Escreveu a biografia Renato Russo – O Trovador Solitário, em 1999, baseado em entrevistas com o compositor e cantor Renato Russo. Escreveu mais cinco livros: BRock – O rock brasileiro dos anos 80Miudos metafísicosGuia de rock em CDManual do Mané; e De cada amor tu herdarás só o cinismo. Seu último livro, Conversa Sobre o Tempo, foi lançado pela Agir, em 2010. A obra é uma longa conversa entre ele, Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura.

 

Leia a entrevista que o escritor deu ao Salvem os Gatos.

 

Salvem os Gatos – O que é a crônica?

 

Arthur Dapieve – O Joaquim Ferreira dos Santos costuma dizer que “crônica é tudo aquilo que você chama de crônica”. Parece exagero, mas ela pode ser um ensaio crítico, uma pequena história ficcional, um poema, um comentário sobre fatos da semana… O que as une, acho, é o traço fortemente autoral (independente do uso da primeira pessoa do singular) e a publicação imediata (em jornal, revista ou internet). A crônica tem pressa.

 

Salvem os Gatos – Crônica é sempre um texto bastante autoral e, quando bem escrito, natural e espontâneo. Existe fórmula para escrever uma boa crônica? Ou trata-se de algo que o escritor domina organicamente?

 

Arthur Dapieve – Não, não existe fórmula. Eu, por exemplo, gosto de pensar em textos híbridos, tipo crônicas que são ao mesmo tempo resenha de disco. Na “Bravo!” cheguei a fazer um conto/resenha.

 

Salvem os Gatos – Uma característica marcante na crônica é o fato de que esta apresenta uma estrutura livre. Você diria que tudo cabe na crônica? Ou a crônica tem limites? 

 

Arthur Dapieve – Sim, cabe tudo desde que o autor tenha o que dizer e, tão importante quanto, tenha como dizer.

 

Salvem os Gatos – Qual a diferença entre crônica e ensaio?

 

Arthur Dapieve – O ensaio mesmo tem, necessariamente, mais peso e, quase sempre, um tom mais acadêmico e menos coloquial. Mas eles se acasalam muito bem, no meu entender. Dá para falar coisas profundas de modo leve.

 

Salvem os Gatos – A crônica é um gênero jornalístico ou literário?

 

Arthur Dapieve – A crônica está exatamente no limite entre o jornalístico e o literário.

 

Salvem os Gatos – Existem diferenças entre o público que lê crônicas e o que lê livros?

 

Arthur Dapieve – Em boa parte, sim. A crônica surge primeiro na imprensa ou na “imprensa” e depois é que chega aos livros, que têm sempre menos leitores que um jornal ou uma revista.

 

 

Salvem os Gatos – O ofício de cronista, como começou?

 

Arthur Dapieve – Em 1993, “O Globo” queria um colunista que comentasse a cena cultural, como o Artur Xexéo fazia no JB. Encarregaram-me de ser o rival dele. Só que nós dois somos tão diferentes em quase tudo (ele adora MPB, eu sou do rock, ele não curte futebol, eu sou fanático…) que logo minha coluna ganhou uma outra cara. Nem pior, nem melhor, diferente.

 

Salvem os Gatos – Como você escolhe os assuntos para suas crônicas semanais?

 

Arthur Dapieve – Gosto de pensá-los com alguma antecedência, até para poder ter margem de manobra para descartar um texto ou um assunto. Escolho aquilo que me dá um “estalo”, seja o que for. Sob certo aspecto, é um mistério até para mim. Há discos, por exemplo, que eu adoro, mas não vejo o que escrever de original sobre eles. Esse último do Bowie. Adorei, mas estou há duas semanas imaginando como abordá-lo.

 

Salvem os Gatos – Quem são os seus cronistas favoritos?

 

Arthur Dapieve – Dos vivos, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura. Dos mortos, Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos.

 

Salvem os Gatos – Como escritor, cronista e professor, que sugestões você daria aos cronistas iniciantes?

 

Arthur Dapieve – Eu sugeriria que os iniciantes escrevessem, escrevessem e escrevessem, mas nunca deixassem de ler, ler e ler também.

 

Salvem os Gatos – Por último, o que é para você escrever crônicas? Um trabalho, uma arte ou um hobby?

 

Arthur Dapieve – Escrever crônica para mim é um hábito. Se ele resulta em arte ou não, é cada leitor que vai dizer.

 

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