Moça, seu namorado é gay

Por Juliana Moreira Leite

Lamentavelmente, a homossexualidade continua um tabu na sociedade brasileira. Assumir-se homossexual, ainda nos dias de hoje, significa aceitar o desafio de travar uma luta contra um país preconceituoso, machista e tradicionalista.

O preconceito não é só imposto pelas religiões, famílias, ou pelo fator político e social; algumas vezes, é cultivado pelo próprio homossexual. É preciso se assumir antes de tudo para si mesmo. Entretanto, como a “autorrejeição” é bastante comum, nem sempre é fácil aceitar a própria condição. Existem homens que ainda namoram e se casam com pessoas do sexo oposto, por obrigação, medo, insegurança, status, vergonha, entre outros motivos.

Para estes que levam vida dupla, o armário é considerado a única saída, o lugar seguro. Não é difícil entender as dificuldades de alguns gays em se assumir. Há muitos que insistem em se afirmar héteros, e chegam a perder a cabeça caso alguém sugira o contrário. Contudo, para a maioria das pessoas que se relacionam com os escondidos, não há problema nenhum. Sair do armário é opção pessoal. No final das contas, por respeito, quase todos fazem vista grossa, pois entendem que a opção sexual de cada um é algo de foro privado.

O problema começa quando um homem “no armário” arruma uma parceira apenas como instrumento de autoafirmação social. Nesse caso, para a mulher é complicado aceitar que seu homem não apenas mente para os outros, mas principalmente para ela. Para a amante enganada, descobrir a verdadeira orientação sexual do parceiro é na maioria das vezes traumático. Ser arrastada à força para fora do armário, onde ela nem sequer sabia que coabitava, não é exatamente agradável. De outro lado, quando não descobertos, esses maridos e namorados podem permanecer escondidos a vida toda. Ainda que seja muito alto o custo para todos os envolvidos nessa farsa.

Quase todo mundo sabe de alguma história de mulheres com companheiros bastante suspeitos. Quem não tem uma amiga vítima da armadilha sentimental de um homossexual que não se assume para a sociedade?

Para reconhecer o enrustido, precisa-se ter o tal do “gaydar” – radar de gay. Nem todos, porém, contam com um. Com essa concepção em mente, as jornalistas Ticiana Azevedo e Consuelo Dieguez escreveram o livro “Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela” (Editora BestSeller). A ideia, segundo as autoras, é facilitar a vida das mulheres, levando-as a identificar se o lindo príncipe é, na realidade, um gay que gosta do escurinho do armário.

Sob esse mesmo prisma, o estudante de jornalismo Luiz Fernando de Araujo criou no Facebook uma página que vem fazendo sucesso no Brasil inteiro: “Moça, seu namorado é gay”, na qual constam dicas e pistas capazes de denunciar a verdadeira orientação sexual dos muitos homens que se dizem heterossexuais, quando na verdade estão longe disso.

Bem-humorado, o criador da página explica que sua intenção não é ofender, muito menos rotular ninguém. Trata-se apenas de uma brincadeira. Mola, como gosta de ser chamado, relata que a ideia lhe surgiu depois que observou diversas situações em que rapazes, mesmo acompanhados de suas mulheres, paqueravam outros homens.

Algumas postagens são bem generalizadas, caricatas. No entanto, de acordo com os vários comentários ali escritos, percebe-se que, para os milhares de seguidores da página, várias coisas publicadas por Mola realmente fazem todo o sentido.

De maneira leve e descontraída, toda semana o estudante posta no Facebook diversas fotos e frases que brincam com o sexo feminino, ao afirmar que, na verdade, seus companheiros podem não ser bem o que aparentam.

 

Confira aqui a entrevista com o autor da página Moça, seu namorado é gay:

Salvem os gatos: Como surgiu a ideia do ‘Moça, seu namorado é gay’ no Facebook?

Mola: Surgiu de uma brincadeira que eu fazia com meus amigos, quando saíamos e encontrávamos um casal no qual o cara era visivelmente gay. Depois de um tempo usando o bordão, acabei criando a página em um domingo à tarde, enquanto não tinha nada pra fazer.

Salvem os gatos: Você esperava que a página fizesse tanto sucesso?

Mola: Não! Me assustei bastante com a velocidade em que a página crescia. No final do primeiro dia, sem divulgação nenhuma, a página já tinha mais de mil likes!

Salvem os gatos: Em sua opinião, que fatores contribuíram para o estrondoso sucesso do ‘Moça, seu namorado é gay’?

Mola:  Humor leve e identificação com as pessoas. Todo mundo faz ou conhece alguém que faz alguma coisa que a página diz que é “gay”. Então todo mundo pode entrar na brincadeira.

Salvem os gatos: Quem está por trás da página? Como é a seleção das fotos e das frases?

Mola: Só eu. A seleção é relativa. Procuro colocar as frases menos preconceituosas (recebo um monte de gente que não entende o intuito da página!) e que sejam divertidas. Coisas muito pesadas também não entram.

Salvem os gatos: Qual o significado literal do ‘Moça, seu namorado é gay’, para você?

Mola: No começo era uma forma de alertar com bom humor pras Moças que namoravam caras dentro do armário. Hoje a brincadeira tem menos desse lado de alerta e mais um lado de entretenimento.

Salvem os gatos: O que você responde para as pessoas que criticam os possíveis estereótipos e preconceitos no “Moça, seu namorado é gay”?

Mola: As pessoas tem que pegar leve com esse negócio de acharem que tudo é preconceituoso. Conheço um monte de gays que não fazem o que está na página e um monte de héteros que fazem. Se fosse pra levar a página a sério todo mundo seria gay! E quanto ao preconceito, acho curioso. As pessoas acham que a página é preconceituosa porque diz que alguém é gay, e acham que é uma coisa negativa. Ser gay não tem nada de negativo! Acho que o preconceito está em acharem que chamar alguém de gay é um xingamento.

Salvem os gatos: Muitas postagens fazem brincadeiras com os homens que se cuidam muito. É fácil separar o gay do metrossexual?

Mola: É difícil porque todo mundo tem a imagem do gay metrossexual e do hétero desleixado. Não tem como saber de verdade se uma pessoa é gay ou não só por ela se cuidar demais.

Salvem os gatos: Para as mulheres, qual a importância de estar com o “gaydar” sempre acionado?

Mola: É fácil ver quando um cara é gay, se ficar atenta aos detalhes. Se quiser embarcar num relacionamento mesmo assim, sem problemas!

Salvem os gatos: O que faz com que as mulheres sejam mais vulneráveis aos enrustidos?

Mola: Talvez por eles frequentemente (mas não todos!) terem essa pinta de príncipe encantado, todo bem cuidado, carinhoso, assiste comédia romântica e chora junto, elogia o novo corte de cabelo…

Salvem os gatos: Quais os grandes questionamentos do homem que vive no armário? E você acha que sua página on-line ajuda ou denigre esses homens?

Mola: Já foi bem mais difícil sair do armário, mas ainda não é tão fácil. O que é importante, na minha opinião, é que o cara seja sincero consigo e com os outros. Não acho que a página ajude, nem denigra os enrustidos. Ela só brinca com esses deslizes que eles dão quando estão tentando disfarçar o seu verdadeiro jeito de ser.

Salvem os gatos:  Don Kulick, antropólogo americano que conviveu bom tempo com travestis no Brasil, afirma que os travestis brasileiros em grande maioria não se consideram transexuais. Ao contrário, afirmam que são homossexuais – homens que desejam outros homens modelam-se e se completam como objeto de desejo destes. No estudo, o autor também concluiu que grande parte dos homens que procuram travestis são casados ou têm namoradas. Para você, o que justifica o fascínio de alguns “homens no armário” por travestis?

Mola: Não sou antropólogo, nem travesti e nem cliente, então só posso supor. Pra mim, eles devem se sentir mais seguros com o fato de satisfazerem o desejo sexual por outro homem, se esse estiver vestido como mulher, já que crescemos em uma sociedade muito machista, que põe na cabeça das pessoas que homem que gosta de homem não é homem.

Salvem os gatos: Em várias entrevistas você já afirmou que, apesar de a página ter sido inspirada em situações reais, não passa de uma brincadeira. Isso dito, quem lê os posts na sua página aprende de fato como diferenciar o heterossexual do “gay no armário”?

Mola:  Aprende a ficar mais atento. O gay no armário dá vários sinais de que está lá dentro. Acho que a página dá uma calibrada no gaydar. hahahaha

Salvem os gatos: Por fim, quais os primeiros sinais que devem deixar as mulheres em alerta?

Mola: Tem muitos! Quem quiser saber, uma boa dica é acompanhar a página!

 

 

Acesse a página “Moça, seu namorado é gay” no link:

https://www.facebook.com/mocaseunamoradoegay?fref=ts

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