Just like heaven

 

  Eu desmaio. Às vezes apago no meio da rua. E, geralmente, quando isso acontece, é algo bastante súbito, sem qualquer aviso prévio. No entanto, nem sempre fui dada aos tremeliques corporais. Minha distinta trajetória de síncopes começou há mais ou menos sete anos. E  lembro exatamente da primeira vez em que isso aconteceu. Estava distraidamente tomando açaí com granola e comendo torradas integrais com mel, no Bibi Lanches, quando, de hora pra outra, perdi a consciência e despenquei de cabeça no asfalto do Leblon. A causa? Sinceramente, não sei. Creio tenha sido apenas uma baixa da minha pressão, que a cada nova primavera, desce mais ainda. Depois passou um bom tempo, até desmaiar de novo. E quando aconteceu, foi da mesma maneira súbita. Numa noite curitibana, caí dura, dentro de um galpão. Consequentemente, após esse segundo episódio fatídico, fiz exames neurológicos, de sangue e do coração. Porém, nada foi constatado. Quer dizer, os médicos paranaenses falaram apenas o que eu já sabia: sou basicamente uma morta-viva! Minha pressão é muito baixa, para não dizer inexistente. Ou seja, tenho predisposição física a tonturas, vertigens e desmaios.

Na primavera passada mesmo, quando estava a caminho da Europa, sem mais nem menos desmaiei, de madrugada, no corredor do avião. Ali, a situação foi um pouco mais trágica, pois além de ter apavorado todos os passageiros, eu, que viajava para a Bélgica, tive de implorar aos tripulantes que me deixassem seguir viagem até o destino final. Na troca de aviões em Portugal, queriam me levar de qualquer jeito para um hospital. Chorei, chorei, pedi, argumentei, até que os pilotos entenderam que meu corpo é assim, dramático. Que volta e meia ele prega tais peças em mim, mas, segundo os especialistas, aparentemente não tenho nada de doenças mais sérias. Felizmente, depois de muito chororô, eles me deixaram seguir até Brussels. E, logicamente que esse não foi o último suplício de meu corpicho. O fato é que na semana passada, again, perdi minha consciência em Ipanema. No entanto, foi mais ou menos a crônica de uma queda de pressão anunciada. Já tinha percebido de manhã cedo que a minha temperatura corporal vinha baixando drasticamente. De qualquer jeito, fui resolver minhas coisas, normalmente. Só que, de noite, quando estava quase chegando à faculdade, beijei novamente o asfalto. E dessa vez, sem dúvida alguma, foi a pior de todas. Quando voltei a mim, comecei a vomitar e assim fiquei por muitas horas. Não conseguia beber água, não conseguia comer. Vomitava seguidamente, sem parar. E fui então parar na emergência.

Nem sei direito como cheguei à clínica. A essa altura do campeonato, estava um tanto quanto desfalecida. Tudo que eu lembro foi que ao dar por mim, na sala de emergência, achei que tinha morrido e acordado no Seattle  Grace Hospital. Sem exageros. Eu literalmente fui atendida pelo Dr. McDreamyMcSteamyMcHappyMealPerfeito! Os adjetivos me faltam para traduzir  a tamanha beleza do médico que me socorreu. O plantonista era um verdadeiro atentado violento ao meu pudor. Tal donzelo, com certeza um residente em seu primeiro ano, talvez segundo – ele não aparentava ter mais de 20 e pouquinhos- tinha nariz arrebitado, boca carnuda em forma de coração, uns olhos expressivos e sobrancelhas grossas, vasta cabelereira preta e, pasmem, tudo isso sustentado por um metro e oitenta de pura saúde. Sua presença de jaleco transpirava poder, vitalidade, sedução e cura. E depois de  horas passando mal, eu que estava parecendo ter saído diretamente do set de filmagem do Night of the Living Dead para um pronto atendimento, no instante em que vi o Dr. FeelGOOD, rapidamente percebi minhas bochechas pálidas ganharem cor de novo. Em uma fração de segundos, os sinais vitais retornaram aos costumes, meu batimento cárdico aumentou e, simultaneamente, o sangue jorrou para todos os cantos.

Eu fico pasmada. Realmente, é impressionante como a beleza máscula, de homens heterossexuais, estimula meu desejo de viver! Tudo neles me inebria. Desde a postura séria, passando pela voz grave e aquelas mãos grandes. O sexo forte me atrai, sensibiliza, causa curiosidade e,  algumas vezes, até me ressuscita das trevas, como comprovado no ambulatório.  Não tem jeito, a perfeição em forma de testosterona emociona-me em níveis indescritíveis. E mesmo que nunca tenha me relacionado com homem nenhum tomando por base seus atributos físicos (sempre privilegiei a inteligência, a criatividade e a elegância, a despeito de quais quer outras qualidades), os desprovidos de beleza pelos quais me encantei que me perdoem, o prazer que eu sinto ao observar um macho com feições privilegiadas é celestial.

Mas, deixando os sassaricos de minha mente desvairada de lado por um minuto, a verdade é que, apesar de minhas síncopes súbitas não serem frutos de doenças e sim de uma hipotensão, é altamente constrangedor o fato de eu desmaiar. Afinal, sempre que entro em síncope total, encontro-me em lugares públicos e, quando volto a mim, mil olhares apavorados me cercam.  E isso sem mencionar que há um perigo real nessas abruptas perdas de consciência, várias coisas podem ocorrer devido aos meus episódicos desfalecimentos. Posso ter traumatismos cranianos, fraturas de membros, lacerações, entre otras cositas más. Contudo, no fundo, não me prendo a nada disso. Até mesmo porque pra morrer, basta estar vivo. É o princípio básico da vida. Ademais, como vivo de uma crença simples: qualquer coisa que me alegra é incrivelmente valiosa, agora que descobri que ao desmaiar, o deus grego Eros, estará me esperando no sétimo céu da casa de saúde do  bairro, é bem capaz  de meu subconsciente transformar isso em um esporte mensal.

Resumo da Ópera: realmente existem machos que vêm para o bem. Não é que o dito popular está certo!  A grande lição, tirada desse meu frágil estado de ser, é que algumas coisas ruins nos acontecem, para posteriormente nos trazerem alegria muito maior. Quem diria que, devido a essa minha pressão arterial 7 por 6, eu descobria o Jardim do Éden no pronto socorro do Humaitá?!  Desmaiar nunca foi tão divertido!

 




O Médico galã acabou na novela das oito: 

http://gshow.globo.com/novelas/salve-jorge/videos/t/cenas/v/amanda-sonda-yolanda-sobre-o-passado-de-carlos-e-antonia/2332100/

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