As exs do meu ex

A primeira ex do meu ex me enviou um e-mail quando nós dois comemorávamos três meses de namoro. Só que, para a minha total falta de sorte, ele conseguiu que eu não lesse a mensagem.

Era uma maluca, afirmou-me ele. Uma recalcada que o amava e esperneava toda vez que ele arrumava uma namorada.

Como em tão pouco tempo de namoro já havia aparecido uma ex-ficante falsamente grávida, e a rede social do meu ex era um verdadeiro festival de desavisadas, não dei muita bola quando ouvi a história dos dois. Mas o nome dela ficou na minha memória: Flávia.

Olhando em retrospecto, eu deveria ter achado esquisito o medo enorme que ele sentia dela. Implorou que eu fechasse meu Instagram, deletasse meu blog, saísse do Facebook. Sempre com a desculpa de que ela poderia não apenas vir atrás de mim, mas também procurar meus irmãos ou meu pai.  E daí?, pensava eu. Ela vai falar o quê? Que te ama? Eu não via mal nisso. Quem ia passar vergonha era ela. Afinal, não passava de uma maluca.

Porém, na realidade, ele tinha pavor desse nosso encontro. Tanto que, como bom umbandista que é, fez o que pode, no terreiro que frequenta, para que a moça ficasse longe da gente. Botou bife na pedra, escreveu o nome dela no chão com pólvora, oferendou charuto a entidades.

Não sei se as mandingas funcionaram, no entanto eu nunca mais ouvi falar dela.

Até que, meses depois, vendo fotos antigas no Instagram dele, encontrei mensagem de uma mulher chamada  Flávia e, por curiosidade, entrei no seu perfil.

Para a minha surpresa, a tal da menina tinha uma cara ótima. Não que fotos digam tudo, mas dá para a gente saber demais sobre alguém observando a maneira pela qual a pessoa se expõe nas redes sociais. E o perfil dela era bem normal.  Menina família, com cara boa, nada de milhares de selfies ou fotos de bunda na academia, com citações de Eistein, e outras cositas esdrúxulas que tanto se veem por aí.

No mesmo dia em que entrei no Instagram da tal da Flávia, quando meu ex chegou em casa – àquela altura já estávamos morando juntos ‒ perguntei-lhe se esta era a menina que havia tentado falar comigo. Ele assegurou que não. A stalkeadora era outra.

Fiquei com a pulga atrás da orelha, porém ignorei o assunto.

Até que, muito tempo e vários vendavais depois, terminamos.

Logo após me separar dele, conversando com uma amiga, esta me advertiu: “Esse tipo de homem é daqueles que deixa rastro de destruição por onde passa. Acho ele perigoso. Você por um acaso conhece alguma ex dele? Se sim, creio que agora é o momento de  perguntar do que ele é capaz, Ju”.

Ao ouvir suas palavras, comentei que, lá atrás, uma menina tentara falar comigo.  Minha amiga então recomendou que eu entrasse em contato com essa pessoa para obter algumas informações.

 

***

A história da Flávia foi a seguinte: a primeira vez que ela ficou com o falso galã aconteceu dois anos antes de eu namorá-lo. Na época ele era casado, mas esquecera de lhe mencionar esse insignificante detalhe.  Ao descobrir que o donzelo morava com uma moça no Rio de Janeiro, a Flávia parou de vê-lo. Ainda que o meu-ex nunca a tenha deixado em paz. Mesmo comprometido, ele lhe enviava constantemente mensagens, e-mails e fotos de suas partes íntimas… Quando o cafajeste se separou da mulher, a Flávia e ele voltaram a estar juntos em São Paulo.  Até que, um belo dia, ele foi passar Natal no Rio e não voltou mais.

Oito meses depois, todo endividado, morando de favor no apartamento da irmã ‒ o qual, detalhe, tinha ido a leilão por falta de pagamento ‒, o infame foi atrás novamente da Flávia em Sampa, declarando amor eterno.

Dessa vez era para valer, prometeu ele.

Ficou lá um tempinho, ou seja, o bastante para convencê-la das suas boas intenções; pediu-lhe dinheiro emprestado e, again, se pirulitou para o Rio, com a desculpa de que tinha uma entrevista de trabalho.

E foi ai que eu o conheci.

Nossos primeiros encontros foram pagos com o dinheiro “emprestado” pela Flávia. Até porque, apesar de já sermos um casal desde o início, só depois de dois meses fizemos essas coisas banais de postar fotos juntos e assumir namoro on-line. Ou seja, a coitada não tinha ideia de que ele estava namorando sério alguém no Rio de Janeiro. E muito menos eu sabia que, tecnicamente, existia uma namorada em São Paulo.

Infelizmente, uma não sabia da outra…

Nesse interim, o pai de Flávia morreu. Na semana seguinte ao enterro, o biltre, aproveitando-se do estado frágil da namorada de São Paulo, com o cartão dela, sacou todo o dinheiro da conta-corrente, comprou coisas como óculos escuros, produtos da MAC (pra mim), pagou um curso caro, deixando-a com um prejuízo total de cerca de R$ 20.000,00. E terminou com ela por e-mail, e a bloqueou de qualquer forma de contato.

Traduzindo: Socorro!!!!

Para meu espanto, não bastasse o que ele aprontou com a Flávia, além de todo o inferno que vivenciei namorando esse xuxu de ser humano, passam-se quatro meses após nosso término e recebo uma mensagem da Bruna.  E quem é Bruna, você caro leitor pergunta? A vítima que se seguiu a mim.

Vale a pena mencionar que a Bruna, além de me procurar, assustada com o caráter do golpista, também contatou a ex-mulher deste, que a respondeu de maneira simples e direta: “Ele não é uma boa pessoa”.

E não parou por ai. A coisa ficou ainda mais esquisita! Após a Bruna aparecer querendo conversar, recebo mensagem de uma médica, ex-ficante do meu ex, com o seguinte texto: “Te sigo on-line tem tempo, queria pedir desculpas por não ter te avisado quem ele era…”.

Resumo da ópera: Havia um exército de mulheres que tinham sido abusadas, moral, física e financeiramente por essa maravilha de homem.

E, aliás, se eu descrevesse em todos os seus detalhes e complexidades o tormento que passamos, esta história viraria um folhetim mexicano, com pitadas de filme de terror, para ninguém botar defeito.

***

Por muito tempo classifiquei ex-namoradas como fora do meu departamento. Elas não eram inimigas, necessariamente, mas nunca seriam minhas amigas. Decerto, a convenção nos faz acreditar que meninas que se apaixonaram pelo mesmo cara (ainda que em momentos diferentes) deveriam odiar umas às outras. Mas ao conversar com a Flávia e a Bruna, e vir a gostar bastante de ambas, diga-se de passagem, fui forçada a enxergar o óbvio. Compartilhávamos um fio comum: o infortúnio de ter cruzado o caminho com o picareta.

Ademais, a verdade é que as separações estão cheias de perguntas ‒ pelo menos na minha experiência ‒, e muitas destas perguntas são deixadas sem resposta.  Portanto, pode parecer loucura para muitos, mas neste caso, falar com as ex-namoradas do meu ex, foi de longe a coisa mais útil que eu fiz desde a minha separação. Mesmo porque, nós três juntas fomos capazes de nos oferecer mutuamente um insight que ninguém mais poderia ter oferecido.

Ora, só nós conhecíamos a típica trajetória emocional, a violência, a vulgaridade e a falta de caráter do nosso ex. E no final das contas, foi libertador entender que havia padrões independentes de nossos relacionamentos, e que nossos sentimentos e confusões eram completamente legítimos. Ouvir umas das outras: “querida, você não está louca” trouxe-nos grande alívio.

O problema não era a Bruna. Nem a Flávia. Nem a Rayra. Nem eu.   O problema todo era apenas “o talentoso Mr. Ripley”. E agora, meses depois desse episodio fatídico de minha biografia, as ex do meu ex são mulheres que posso chamar de amigas.

 

amizadeentremulheres

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  1. Pedro disse:

    Como você sempre diz “Só tem maluco!”. Boa, Jujuba

  2. Diego disse:

    Ju, que bom poder ler seu texto! Nossa, eu fiquei estarrecido com essa história toda. É incrível a capacidade do ser humano de manipular e fazer tudo para alcançar seus objetivos mesmo que pisando nos outros. Construindo castelos em cima dos escombros de outras pessoas, o bom é que sempre são castelos de areia e eles caem por si mesmo. Gratidão por partilhar momentos tão significativos. Eu amei o texto.

  3. Gi disse:

    Uau Ju. Adorei. Acho inclusive que seu texto ajudará muitas mulheres que se percebem nessa situação mas tem medo de encarar a realidade. Mas não, isso acontece até nas melhores famílias! Serve de alerta! Vcs meninas ótimas caíram no golpe de um profissional! Aff! Existem milhares por aí esperando chance de se dar bem. Ainda bem que vocês todas acordaram a tempo de descobrir que de “príncipe” ele não tinha nada. Era um golpista vestido de bom moço. Talvez não tão bom moço assim mas devia ter seus encantos… Para ter conseguido mulheres dignas e maravilhosas!
    Seu texto está ótimo! Tem muita gente que passa por isso e esconde por medo.
    Arrasou! Estará ajudando com certeza a muitas máscaras caírem.

  4. Renata disse:

    Pesadelo de homem disse sua amiga e eu concordo! Cruz credo

  5. João disse:

    Meninas unidas, gosto disso. Belo texto, honesto.

  6. Bete disse:

    Que picareta! Vive de golpes como essas mulheres que casam por dinheiro. Isso é criação, além da falta de caráter dele.

  7. Gabi Amorim disse:

    Uau, Ju!!!! Que texto!!!!! É bem assim mesmo… Esse aí é o típico Cafa!

  8. Rannah disse:

    Tragicômico!
    Amei o texto, não sabia se ria ou se ficava boquiaberta de horror.
    Mas enfim te desejo um Mr. Darcy e nunca mais um Mr. Ripley! rs

  9. Simone disse:

    Também ignorei o contato de uma ex de um atual namorado na época. Depois, fiquei tão envergonhada que escrevi no in box dela pedindo desculpas e agradecedo a ajuda que na minha cegueira ignorei e quebrei a cara. Ele tbm a desvalorizava e a chamava de louca.

  10. Luisa disse:

    Impressionante a falta de integridade. Parabéns pelo texto muito bem escrito. Que sirva de alerta para as mulheres de todo Brasil. Se liguem com os cafajestes meninas!

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