A Sobra (3 eggs left)

” Beware the bottled thoughts of angry young men. 
Secret compartments hide all of the skeletons…”

 

 

  Parem tudo! Alguém impeça a publicação de certas revistas femininas!!! Pelo amor às mulheres, grande parte desse tipo de lixo deveria ser ilegal!

    Hoje de manhã, enquanto tinha minhas unhas feitas e folheava um desses magazines que pautam o comportamento da mulherada, deparei-me com uma matéria que continha fotos de quatro hot-dogs com molhos diferentes. Segundo a reportagem, você deveria perguntar a seu macho de qual tipo de molho ele gostava mais. Por exemplo: se ele escolhesse o pão com salsicha que só leva ketchup e mostarda, de algum modo simbólico isso demonstraria que seu amado não gosta de aventuras. E, segundo estava lá escrito, a solução para dar fim à falta de espírito atrevido do seu homem é muito simples: basta ferver o café para ele com o dobro de pó…! Fascinante, não? Quem diria que café extra forte tem o poder de mudar a personalidade de uma pessoa. Ah!, e depois, às vítimas de companheiros que têm a petulância de comer cachorro quente tradicional, ensinavam truques para apimentar a vida sexual do casal. Afinal, um homem que come o seu hot-dog só com ketchup e mostarda, com certeza não tem um bom borogodó na cama…!

    Após esse insulto à minha sensibilidade, ainda li uma crítica favorável sobre um livro imbecilizante, cujo titulo é ”Como arranjar marido depois dos 35”. Sim, porque no Brasil, se uma mulher se encontra solteira com essa idade, ela tem duas opções: cortar os pulsos ou fazer assinatura de uma dessas bíblias femininas. Isto é, partindo do princípio de que ela queira continuar a viver.

    E o rol de absurdos das desavisadas de plantão não acaba aí. Se não bastasse a reportagem do hot-dog e o livro das balzaquianas suicidas, estava eu almoçando com a mãe de uma amiga, e ela me contou que as duas filhas de uma comadre frequentam reuniões do AA ou do NA, com o único objetivo de encontrar um parceiro. Segundo ela, as moçoilas chegaram à conclusão de que um homem em recuperação está mais down, consequentemente mais carente, mais fácil de ser fisgado e levado ao altar.  Mas tem um detalhe: só valem as reuniões no Leblon e em Ipanema! O que é compreensível. Ninguém quer um junkie que não possa pagar o próprio tratamento. Ela também me contou de mulheres que ficam no Santos Dumont fingindo que vão viajar para ver se descolam um executivo na ponte aérea.  E depois dizem que a prostituição é ilegal no Brasil…

   Não sei nem o que pensar. Volta e meia  me pergunto: isso é o melhor que podemos fazer? Será que a Gloria Steinem não nos ensinou nada? Será que Camille Claudel acabou num hospício em vão?  Sinto-me desesperada no meio de tanta informação inútil e mulheres sem cabimento. É tudo tão esquisito que não dá para salvar nada dessas baixarias clássicas. E o pior, tem muita gente fazendo dinheiro à custa das fantasias alheias, que nada tem a ver com amor ou com o verdadeiro encontro das almas.

   Durante os meus 20 anos, tirando minha grande paixão pelo tatuador, responsável (para desgosto de meus pais) por eu ter um jardim colorindo o meu corpo, namorei alguns homens legais, mas nem pensava em casar. Não estive com ninguém com quem achasse que gostaria de ficar para sempre e também nem cogitava tal ideia. Eu era apenas uma menina livre, leve e solta. Depois, aos 30, fiquei noiva por três anos de um sujeito muito querido; no entanto, sempre soube que não queria casar com ele também. Não conseguia vê-lo ao meu lado enfrentando as mazelas da vida. Apenas aceitei o pedido de noivado, por compaixão. Eu o enrolei. Lembro-me que um dia estávamos eu, meu irmão mais velho e meu então noivo, na casa de minha mãe, quando ele reclamou com meus familiares sobre minha indecisão em marcar a data do casamento. Meu irmão, ao ouvir isso, exclamou atônito: “Juliana pirou? Um menino bonito com dinheiro e você achando que pode recusar? Você não é nenhuma spring chicken não, heim? Casa, eu mando matar o boi na fazenda e faço a festa, se não gostar, separa.”  Por respeito, não respondi nada. Não queria ofender meu queridíssimo namorado (apesar de infantil e bobo, ele era uma gracinha).  Ademais,  mesmo que eu tivesse cinquenta anos, não me casaria com ele. Acabamos terminando. Fui pressionada pelo tal “ou casa ou racha”. Rachamos então.

   Depois dele namorei um grande amigo, que também queria casar comigo e me levar para o Texas. Mais uma vez, todos caíram em cima de mim. “Um milionário a seus pés, pirou de vez? As brasileiras estão se estapeando por um funcionário público, e você escolhendo?”  E meu irmão, é claro, sempre ali me lembrando que eu não era mais nenhuma garotinha.  Logicamente, também não casei. Ele era meu camarada, eu o amo, é o melhor homem que já me aconteceu, mas  não poderia ter me casado com ele, não o queria para sempre. Delicadamente terminei o nosso affair, e voltamos a ser comparsas, sem muitos problemas.  Então, veio o próximo por quem finalmente me apaixonei. E com ele eu fui. Foi à escolha errônea? Bota errônea nisso. Infelizmente, só conheci o Mr. Hyde meses depois de já estarmos morando sob o mesmo teto. Se bem que isso não interessa agora, o que vale é que segui meu coração, e o casamento aconteceu naturalmente (estou relatando apenas a minha parte, porque não posso falar pelo Dr. Jekyll ). Ingenuamente eu o amava, é bem verdade. Contudo, não tivemos como prosperar. Em outras palavras, o fim foi inevitável.  E o inferno daquele estranho encontro amoroso/desastroso acabou.  Ou melhor, explodiu numa grande guerra nuclear afetiva.

   De acordo com a revista Nova, é tudo culpa minha. Como assim, solteira de novo?   Tivesse eu feito a famigerada assinatura, minha vida amorosa seria outra. Isso sem contar que, segundo o próprio Dr. Jekyll,  eu era uma mulher com apenas três óvulos sobrando, e depois dele não ia conseguir mais ninguém para namorar, a não ser ex-cons (ex-detentos).

    Oohhhhh!, gente, será que ele tem razão? A única coisa que me resta é o Fernandinho Beiramar? Será que devo mandar um e-mail para o Scott Peterson em San Quentin?!

  Seja como for… cá estou eu – e os três óvulos que me restam – com a mesma pura convicção que eu tinha aos 21 anos, quando apaixonada pelo tatuador na Califórnia. Eu quero, muito mais do que queria antes, um parceiro para me casar. Beleza, dinheiro, status nunca significaram nada para mim, e continuam a não me dizer nada. Procuro o real. O resto são armadilhas da carência afetiva. E nada disso me seduz.

  Sei que posso e vou escolher com quem durmo até o dia em que morrer. Não vai ter revista, filme, família, ex-companheiro mau caráter, livros imbecis ou carências afetivas que me ponham na posição de pechincha.

 

 

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